Um breve resumo do dilema que Mathieu, personagem principal do livro vive.
Só que o resumo é com base em 3 trechos do livro.
> O querer desesperadamente manter a liberdade:
"Respira, respira, mas apressa-te. Amanhã serás velho demais, terás teus pequenos há-bitos, serás o escravo da tua liberdade. E talvez o mundo esteja também velho demais."
> A importância da liberdade de escolha:
"Você renunciou a tudo para ser livre. Dê mais um passo, renuncie à própria liberdade. E tudo será devolvido."
> A escolha não tira a liberdade, mas é o exercício máximo dela:
"Não tenho nada a defender;não me envaideço de minha vida e não tenho um níquel. Mi-nha liberdade? Ela me pesa. Há anos que sou livre à toa. Morro de vontade de trocá-la por uma convicção. De bom grado trabalharia com vocês, isso me afastaria de mim mes-mo e tenho necessidade de me esquecer um pouco. E depois, penso como você que não se é homem enquanto não se encontra alguma coisa pela qual se está disposto a morrer."
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21 de maio de 2013
17 de maio de 2013
Doses de Cecília Meireles
Liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta,
não há ninguém que explique e ninguém que não entenda.
** . ** . ** . ** . ** . ** . ** . ** . ** . ** . ** . ** . ** . ** . ** . ** . ** . **
PERGUNTO-TE ONDE SE ACHA A MINHA VIDA
Pergunto-te onde se acha a minha vida.
Em que dia fui eu. Que hora existiu formada
de uma verdade minha bem possuída
Vão-se as minhas perguntas aos depósitos do nada.
E a quem é que pergunto? Em quem penso, iludida
por esperanças hereditárias? E de cada
pergunta minha vai nascendo a sombra imensa
que envolve a posição dos olhos de quem pensa.
Já não sei mais a diferença
de ti, de mim, da coisa perguntada,
do silêncio da coisa irrespondida.
Pergunto-te onde se acha a minha vida.
Em que dia fui eu. Que hora existiu formada
de uma verdade minha bem possuída
Vão-se as minhas perguntas aos depósitos do nada.
E a quem é que pergunto? Em quem penso, iludida
por esperanças hereditárias? E de cada
pergunta minha vai nascendo a sombra imensa
que envolve a posição dos olhos de quem pensa.
Já não sei mais a diferença
de ti, de mim, da coisa perguntada,
do silêncio da coisa irrespondida.
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Epigrama n. 2
És precária e veloz, Felicidade.
Custas a vir e, quando vens, não te demoras.
Foste tu que ensinaste aos homens que havia tempo,
e, para te medir, se inventaram as horas.
Felicidade, és coisa estranha e dolorosa:
Fizeste para sempre a vida ficar triste:
Porque um dia se vê que as horas todas passam,
e um tempo despovoado e profundo, persiste.
És precária e veloz, Felicidade.
Custas a vir e, quando vens, não te demoras.
Foste tu que ensinaste aos homens que havia tempo,
e, para te medir, se inventaram as horas.
Felicidade, és coisa estranha e dolorosa:
Fizeste para sempre a vida ficar triste:
Porque um dia se vê que as horas todas passam,
e um tempo despovoado e profundo, persiste.
** . ** . ** . ** . ** . ** . ** . ** . ** . ** . ** . ** . ** . ** . ** . ** . ** . **
Tenho fases, como a Lua; fases de ser sozinha, fases de ser só sua.
** . ** . ** . ** . ** . ** . ** . ** . ** . ** . ** . ** . ** . ** . ** . ** . ** . **
Não seja o de hoje.
Não suspires por ontens....
Não queiras ser o de amanhã.
Faze-te sem limites no tempo.
Não suspires por ontens....
Não queiras ser o de amanhã.
Faze-te sem limites no tempo.
** . ** . ** . ** . ** . ** . ** . ** . ** . ** . ** . ** . ** . ** . ** . ** . ** . **
16 de maio de 2013
Mais um livro do Dan Brown!!
Foi lançado ontem o mais novo livro de Dan Brown, Inferno, que promete fortes questionamentos em torno do tema do título.
Quem já teve a oportunidade de ler algum livro dele, sabe que não se trata de uma história de ficção comum. Além da história ser sempre uma ótima trama, há sempre uma boa pitada de conhecimentos históricos, de informações sobre sociedades secretas, ou não tão secretas. Dá pra perceber que o autor realiza muitas pesquisas. Há grandes chances da criação das histórias ter uma forte parceria com sua esposa, a historiadora Blythe Brown. Aí talvez se encaixe aquela máxima, “por trás de um grande homem, sempre há uma grande mulher”... rsrs
Enfim, mesmo que alguns dos fatos históricos não sejam verídicos, eles sempre se encaixam perfeitamente no enredo, transformando a leitura realmente num prazer.
Acho que vale bem a pena conferir!
Os outros livros do autor:
* Fortaleza Digital, 1998
* Anjos e Demonios, 2000
* Ponto de Impacto, 2001
* Código da Vinci, 2003
* O Símbolo Perdido, 2009
***
2 de outubro de 2012
Definitivo - Carlos Drummond de Andrade
Minha amigona Tati Yumi passou pra mim esse texto...
Alguem poderia ter descrito melhor?
Definitivo - Carlos Drummond de Andrade
Definitivo, como tudo o que é simples.
Nossa dor não advém das coisas vividas,
mas das coisas que foram sonhadas e não se cumpriram.
Sofremos por quê? Porque automaticamente esquecemos
o que foi desfrutado e passamos a sofrer pelas nossas projeções
irrealizadas, por todas as cidades que gostaríamos de ter conhecido ao lado
do nosso amor e não conhecemos, por todos os filhos que gostaríamos de ter
tido junto e não tivemos,por todos os shows e livros e silêncios que
gostaríamos de ter compartilhado,
e não compartilhamos.
Por todos os beijos cancelados, pela eternidade.
Sofremos não porque nosso trabalho é desgastante e paga pouco, mas por todas
as horas livres que deixamos de ter para ir ao cinema, para conversar com um
amigo, para nadar, para namorar.
Sofremos não porque nossa mãe é impaciente conosco, mas por todos os
momentos em que poderíamos estar confidenciando a ela nossas mais profundas
angústias se ela estivesse interessada em nos compreender.
Sofremos não porque nosso time perdeu, mas pela euforia sufocada.
Sofremos não porque envelhecemos, mas porque o futuro está sendo
confiscado de nós, impedindo assim que mil aventuras nos aconteçam,
todas aquelas com as quais sonhamos e nunca chegamos a experimentar.
Por que sofremos tanto por amor?
O certo seria a gente não sofrer, apenas agradecer por termos conhecido uma
pessoa tão bacana, que gerou em nós um sentimento intenso e que nos fez
companhia por um tempo razoável,um tempo feliz.
Como aliviar a dor do que não foi vivido? A resposta é simples como um
verso:
Se iludindo menos e vivendo mais!!!
A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida
está no amor que não damos, nas forças que não usamos,
na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do
sofrimento,perdemos também a felicidade.
A dor é inevitável.
O sofrimento é opcional...
Ler mais: http://www.luso-poemas.net/modules/news03/article.php?storyid=591#ixzz28A2VsmyK
Alguem poderia ter descrito melhor?
Definitivo - Carlos Drummond de Andrade
Definitivo, como tudo o que é simples.
Nossa dor não advém das coisas vividas,
mas das coisas que foram sonhadas e não se cumpriram.
Sofremos por quê? Porque automaticamente esquecemos
o que foi desfrutado e passamos a sofrer pelas nossas projeções
irrealizadas, por todas as cidades que gostaríamos de ter conhecido ao lado
do nosso amor e não conhecemos, por todos os filhos que gostaríamos de ter
tido junto e não tivemos,por todos os shows e livros e silêncios que
gostaríamos de ter compartilhado,
e não compartilhamos.
Por todos os beijos cancelados, pela eternidade.
Sofremos não porque nosso trabalho é desgastante e paga pouco, mas por todas
as horas livres que deixamos de ter para ir ao cinema, para conversar com um
amigo, para nadar, para namorar.
Sofremos não porque nossa mãe é impaciente conosco, mas por todos os
momentos em que poderíamos estar confidenciando a ela nossas mais profundas
angústias se ela estivesse interessada em nos compreender.
Sofremos não porque nosso time perdeu, mas pela euforia sufocada.
Sofremos não porque envelhecemos, mas porque o futuro está sendo
confiscado de nós, impedindo assim que mil aventuras nos aconteçam,
todas aquelas com as quais sonhamos e nunca chegamos a experimentar.
Por que sofremos tanto por amor?
O certo seria a gente não sofrer, apenas agradecer por termos conhecido uma
pessoa tão bacana, que gerou em nós um sentimento intenso e que nos fez
companhia por um tempo razoável,um tempo feliz.
Como aliviar a dor do que não foi vivido? A resposta é simples como um
verso:
Se iludindo menos e vivendo mais!!!
A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida
está no amor que não damos, nas forças que não usamos,
na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do
sofrimento,perdemos também a felicidade.
A dor é inevitável.
O sofrimento é opcional...
Ler mais: http://www.luso-poemas.net/modules/news03/article.php?storyid=591#ixzz28A2VsmyK
31 de outubro de 2011
Drummond muito vivo
Um dos principais responsáveis pela fundação da Academia Brasileira de Letras, contista, poeta e cronista. Carlos Drummond de Andrade, completaria 109 anos hoje.
Segue uma dose de seu talento:
Sentimento do mundo
Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo,
mas estou cheio de escravos,
minhas lembranças escorrem
e o corpo transige
na confluência do amor.
Quando me levantar, o céu
estará morto e saqueado,
eu mesmo estarei morto,
morto meu desejo, morto
o pântano sem acordes.
Os camaradas não disseram
que havia uma guerra
e era necessário
trazer fogo e alimento.
Sinto-me disperso,
anterior a fronteiras,
humildemente vos peço
que me perdoeis.
Quando os corpos passarem,
eu ficarei sozinho
desfiando a recordação
do sineiro, da viúva e do microscopista
que habitavam a barraca
e não foram encontrados
ao amanhecer
esse amanhecer
mais noite que a noite.
8 de setembro de 2011
Dose de Sêneca
"A maior parte dos mortais, lamenta a maldade da Natureza, porque já nascem com a perspectiva de uma curta existência e porque os anos que lhes são dados transcorrem rápida e velozmente. (...) Não temos exatamente uma vida curta, mas desperdiçamos uma grande parte dela. A vida, se bem empregada, é suficientemente longa e nos foi dada com muita generosidade para a realização de importantes tarefas. Ao contrário, se desperdiçada no luxo e na indiferença, se nenhuma obra é concretizada, por fim, se não se respeita nenhum valor, não realizamos aquilo que deveríamos realizar, sentimos que ela realmente se esvai. Desse modo, não temos uma vida breve, mas fazemos com que seja assim. Não somos privados, mas pródigos de vida. Como grandes riquezas, quando chegam às mãos de um mau administrador, em um curto espaço de tempo, se dissipam, mas, se modestas e confiadas a um bom guardião, aumentam com o tempo, assim a existência se prolonga por um largo período para o que sabe dela usufruir.
Parte I do livro "Sobre a brevidade da vida"
Sobre o autor, Lucio Anneo Sêneca (4 a.C. - 65 d.C.)
Filósofo, dramaturgo, político e escritor, foi um dos expoentes intelectuais de Roma. Recém chegando em Roma, estabeleceu-se como advogado (alguém que falava no lugar de outra pessoa). Como conselheiro, tomou parte na corte do imperador Calígula. No ano 41, Messalina, mulher do imperador Cláudio, provocou o banimento de Sêneca para Córsega.
A nova mulher de Cláudio, Agripina, chamou-o a Roma para ser tutor de seu filho, L. Domitius. Em 54, com a morte de Cláudio, o pupilo de Sêneca, tornou-se o novo imperador, Nero, que passou a governar sob orientação de Sêneca. Porém, aos poucos, Sêneca e outros conselheiros perderam a influência sobre Nero, e o governo deste se tornou cada vez mais tirânico.
Em 62, Sêneca aposentou-se e passou a dedicar o seu tempo ao estudo e à escrita. Em 65 foi acusado de participar de um golpe para assissinar Nero. Sem julgamento, recebeu do imperador a ordem de suicídio, o que o fez.
O pensamento de Sêneca, influenciado pela escola estoica (estoicismo propõe viver de acordo com a lei racional da natureza e aconselha a indiferença em relação a tudo que é externo ao ser; sinônimos: austeridade, impassível, imperturbável, insensível), enfatizava medidas práticas por meio das quais enfrentar os problemas da vida, e também a necessidade de se encarar a própria mortalidade e a morte.
25 de agosto de 2011
Tudo que não existe - Parte II
Ao chão, os restos do ocorrido.
Pairando no ar, uma ausência de palavras.
Uma tensão compartilhada pelo choque, gerada pela realidade da impotência por não haver mais nada a fazer.
A não ser eliminar os restos.
Os restos resultantes de um ápice, um limite externalizado em ação.
Os guardas ali, inquietos, como se nunca nada percebessem ser um perigo eminente.
Inoperantes. Incólumes nas suas consciências vazias.
E ele, ele chegou ao limite de sua existência.
Rendição à dor, à falência do existir, da vontade da ação.
Mas quase tão forte quanto à vontade necessária para viver, é a coragem necessária para por fim à vida.
É um tanto contraditório.
Chega a ser um paradoxo, pois que para se antepor à idéia da ação de viver, o argumento da dor, torna a mais difícil decisão de deixar, atraente.
Quanto mais penso que a vida é difícil, cheia de linhas nas entrelinhas, meu lado obscuro permite-se imaginar o fluir deste caminho.
Neste momento, aqui, de forma tão torta, imagino uma sucessão de situações...
Todas passíveis de mudanças, sejam subordinadas de vontades alheias ou destino.
O vazio me toma o centro.
Dizem que esvaziar a mente é saudável.
Mas desde que não se sinta só.
Quando se está vazio, sentindo-se só, ou em busca de algo, o sentimento pode ser a beira do desespero.
Vem a vontade irrepreensível de fazer parte de algo, de querer e ser quisto.
De desvendar um mundo que está sob os olhos abertos, que se mostra de repente, e inunda todo o vazio.
Aí vem a opção consciente, de optar pela vida, pelo movimento.
Existir.
Seja como for esse processo, as sensações que envolvem os sentimentos podem confundir a razão.
Os sentimentos por si só já bagunçam tudo.
A cegueira que a eminência de uma dor pode gerar, acua.
Quando me permito sentir as sensações de histórias sonhadas, é tão intenso, que penso poder saciar-me, abrindo mão da vivência.
Talvez seja por isso que tenha abdicado de viver a realidade.
A realidade pode ser cruel.
Ela é dominadora e inflexível com a dor.
Aí, o meu lado cinzento tomou a meia claridade.
E aos poucos, recusei-me à realidade.
Será que testarei meus limites da forma como restaram as marcas no chão?
Essas marcas que insistem em permancer colorindo a minha mente.
O rubro.
O calor do rubro.
Eu, da forma como hoje me manifesto neste ambiente, permaneço inerte mediante a força do nada.
E eu aqui, sempre sem achar a intercessão, em meio a toda essa continuidade desconexa à realidade, à razão, àquilo que denominamos como normal.
A normose que nos classifica e exclui.
A tensão daquilo que clarifica as diferenças.
Mas não, o mundo me segura.
Segura-me com força.
Mesmo que pelo meu lado masoquista, mas me retém com vigor.
Pairando no ar, uma ausência de palavras.
Uma tensão compartilhada pelo choque, gerada pela realidade da impotência por não haver mais nada a fazer.
A não ser eliminar os restos.
Os restos resultantes de um ápice, um limite externalizado em ação.
Os guardas ali, inquietos, como se nunca nada percebessem ser um perigo eminente.
Inoperantes. Incólumes nas suas consciências vazias.
E ele, ele chegou ao limite de sua existência.
Rendição à dor, à falência do existir, da vontade da ação.
Mas quase tão forte quanto à vontade necessária para viver, é a coragem necessária para por fim à vida.
É um tanto contraditório.
Chega a ser um paradoxo, pois que para se antepor à idéia da ação de viver, o argumento da dor, torna a mais difícil decisão de deixar, atraente.
Quanto mais penso que a vida é difícil, cheia de linhas nas entrelinhas, meu lado obscuro permite-se imaginar o fluir deste caminho.
Neste momento, aqui, de forma tão torta, imagino uma sucessão de situações...
Todas passíveis de mudanças, sejam subordinadas de vontades alheias ou destino.
O vazio me toma o centro.
Dizem que esvaziar a mente é saudável.
Mas desde que não se sinta só.
Quando se está vazio, sentindo-se só, ou em busca de algo, o sentimento pode ser a beira do desespero.
Vem a vontade irrepreensível de fazer parte de algo, de querer e ser quisto.
De desvendar um mundo que está sob os olhos abertos, que se mostra de repente, e inunda todo o vazio.
Aí vem a opção consciente, de optar pela vida, pelo movimento.
Existir.
Seja como for esse processo, as sensações que envolvem os sentimentos podem confundir a razão.
Os sentimentos por si só já bagunçam tudo.
A cegueira que a eminência de uma dor pode gerar, acua.
Quando me permito sentir as sensações de histórias sonhadas, é tão intenso, que penso poder saciar-me, abrindo mão da vivência.
Talvez seja por isso que tenha abdicado de viver a realidade.
A realidade pode ser cruel.
Ela é dominadora e inflexível com a dor.
Aí, o meu lado cinzento tomou a meia claridade.
E aos poucos, recusei-me à realidade.
Será que testarei meus limites da forma como restaram as marcas no chão?
Essas marcas que insistem em permancer colorindo a minha mente.
O rubro.
O calor do rubro.
Eu, da forma como hoje me manifesto neste ambiente, permaneço inerte mediante a força do nada.
E eu aqui, sempre sem achar a intercessão, em meio a toda essa continuidade desconexa à realidade, à razão, àquilo que denominamos como normal.
A normose que nos classifica e exclui.
A tensão daquilo que clarifica as diferenças.
Mas não, o mundo me segura.
Segura-me com força.
Mesmo que pelo meu lado masoquista, mas me retém com vigor.
18 de julho de 2011
Uma dose de Dostoievski

"Uma noite prodigiosa, uma dessas noites que talvez só vejamos quando somos novos (...). O céu estava tão fundo e tão claro que ao olhá-lo uma pessoa era forçosamente levada a perguntar-se se seria possível que debaixo de um céu daqueles pudessem viver criaturas más e tenebrosas Questão esta que, para dizer a versade, só é costume levantar-se quando somos jovens, muito jovens mesmo, querido leitor. Prouvera a Deus que pudésseis reviver com frequência essa idade na vossa alma! Enquanto ia pensando assim em várias pessoas, é claro que acabava por recordar-me involuntariamente do panegírio que a mim próprio eu havia tecido, nesses tempos."
2 de maio de 2011
Palavras do Veríssimo
"Não deixe que a saudade sufoque,
que a rotina acomode,
que o medo impeça de tentar.
Desconfie do destino e acredite em você.
Gaste mais horas realizando que sonhando,
... fazendo que planejando,
vivendo que esperando porque, embora quem quase morre esteja vivo,
quem quase vive já morreu."
sábias palavras do Veríssimo!
que a rotina acomode,
que o medo impeça de tentar.
Desconfie do destino e acredite em você.
Gaste mais horas realizando que sonhando,
... fazendo que planejando,
vivendo que esperando porque, embora quem quase morre esteja vivo,
quem quase vive já morreu."
sábias palavras do Veríssimo!
10 de abril de 2011
Gonçalo Tavares
No ano passado participei de uma oficina de escrita pela Fundação Cultural, com o Marcio Abreu. Foi numa oficina muito curta, apenas 2 semanas, mas foi muito intensa no sentido de riqueza literária. O professor nos apresentou um escritor muito bom chamado Gonçalo Tavares. Durante as duas semanas, lemos o seu livro “Ou o homem é tonto ou é mulher”. É um novo estilo literário, pois envolve a prosa, mas em disposição de poesia. O conteúdo é muito direto, como se fosse uma “filosofia aplicada” ou uma meditação escrita. É um tom sarcástico mas numa medida boa de se ler. O Saramago elogiou seu trabalho, falado que era um escritor com um futuro brilhante. Inspirada nesse estilo do Gonçalo que acabei escrevendo o texto “Tudo que não existe”, postado aqui no blog há um tempo.
Transcrevo aqui algumas linhas do seu livro “Ou o homem é tonto ou é mulher”.
“Tenho pedras no bolso.
Muitas pedras no bolso.
Troco duas pedras por uma maquina de pensar.
Quando penso dói-me a cabeça.
Daí as pedras.
Tenho 5 pedras porque penso mal 5 vezes.
Tenho 5 pedras nos bolsos.
Quero viajar.
Mas para viajar é necessário ser leve.
As pedras são pesadas.
Não consigo viajar com tantas pedras.
Tenho tantas pedras dentro da cabeça, dentro do crânio.
Total: 5.
Daí meu peso.
Impossível viajar com tanto peso.
Quero comprar uma máquina que pense por mim.
Tenho o livro de um filósofo.
Tenho 2 livros de um filósofo.
Um livro é uma máquina que pensa por mim e é uma máquina barata.
Mas eu não quero que pensem por mim sempre da mesma maneira.
O mesmo livro pensa sempre da mesma maneira.
Se eu fechar o livro, calo-me, e as pedras pesam-me mais no crânio.
Se eu abrir o livro começo a falar, mas digo sempre a mesma coisa.”
28 de fevereiro de 2011
Corpo de lama - Chico Science

"Deixai que os fatos sejam fatos naturalmente, sem que sejam forjados para acontecer.
Deixai que os olhos vejam os pequenos detalhes lentamente.
Deixai que as coisas que lhe circundam estejam sempre inertes, como móveis inofensivos, para lhe servir quando for preciso.
E nunca lhe causar danos, sejam eles morais físicos ou psicológicos..."
Chico Science
ૐ
Deixai que os olhos vejam os pequenos detalhes lentamente.
Deixai que as coisas que lhe circundam estejam sempre inertes, como móveis inofensivos, para lhe servir quando for preciso.
E nunca lhe causar danos, sejam eles morais físicos ou psicológicos..."
Chico Science
ૐ
16 de janeiro de 2011
Frases de Clarice

Clarice Lispector (1920 - 1977), escritora brasileira de origem judia nascida na Ucrânia.
Escritora das melhores... a melhor pro meu gosto.
Aí vão algumas frases:
“Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.”
”Minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem de grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite.”
“Que ninguém se engane, só se consegue a simplicidade através de muito trabalho.”
“Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento.”
“Enquanto eu tiver perguntas e não houver respostas... continuarei a escrever.”
“Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero uma verdade inventada.”
“Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome.”
“E o que o ser humano mais aspira é tornar-se ser humano”
“Passei a vida tentando corrigir os erros que cometi na minha ânsia de acertar.”
“Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo.”
7 de novembro de 2010
Frase de Cecília
*.* . . * . * . . * . *
"Com agulhas de prata, de brilho tão fino, bordai as sedas do vosso destino."
Cecília Meireles
*.* . . * . * . . * . *
1 de novembro de 2010
Saramago por ele mesmo, no dia do prêmio Nobel
O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever. As quatro da madrugada, quando a promessa de um novo dia ainda vinha em terras de França, levantava-se da enxerga e saía para o campo, levando ao pasto a meia dúzia de porcas de cuja fertilidade se alimentavam ele e a mulher. Viviam desta escassez os meus avós maternos, da pequena criação de porcos que, depois do desmame, eram vendidos aos vizinhos da aldeia. Azinhaga de seu nome, na província do Ribatejo.Chamavam-se Jerónimo Melrinho e Josefa Caixinha esses avós, e eram analfabetos um e outro. No Inverno, quando o frio da noite apertava ao ponto de a água dos cântaros gelar dentro da casa, iam buscar às pocilgas os bácoros mais débeis e levavam-nos para a sua cama. Debaixo das mantas grosseiras, o calor dos humanos livrava os animaizinhos do enregelamento e salvava-os de uma morte certa. Ainda que fossem gente de bom caráter, não era por primores de alma compassiva que os dois velhos assim procediam: o que os preocupava, sem sentimentalismos nem retóricas, era proteger o seu ganha-pão, com a naturalidade de quem, para manter a vida, não aprendeu a pensar mais do que o indispensável.
Ajudei muitas vezes este meu avô Jerónimo nas suas andanças de pastor, cavei muitas vezes a terra do quintal anexo à casa e cortei lenha para o lume, muitas vezes, dando voltas e voltas à grande roda de ferro que acionava a bomba, fiz subir a água do poço comunitário e a transportei ao ombro, muitas vezes, às escondidas dos guardas das searas, fui com a minha avó, também pela madrugada, munidos de ancinho, panal e corda, a recolher nos restolhos a palha solta que depois haveria de servir para a cama do gado. E algumas vezes, em noites quentes de Verão, depois da ceia, meu avô me disse: "José, hoje vamos dormir os dois debaixo da figueira". Havia outras duas figueiras, mas aquela, certamente por ser a maior, por ser a mais antiga, por ser a de sempre, era, para toda as pessoas da casa, a figueira.
Mais ou menos por antonomásia, palavra erudita que só muitos anos depois viria a conhecer e a saber o que significava... No meio da paz noturna, entre os ramos altos da árvore, uma estrela aparecia-me, e depois, lentamente, escondia-se por trás de uma folha, e, olhando eu noutra direção, tal como um rio correndo em silêncio pelo céu côncavo, surgia a claridade opalescente da Via Láctea, o Caminho de Santiago, como ainda lhe chamávamos na aldeia. Enquanto o sono não chegava, a noite povoava-se com as histórias e os casos que o meu avô ia contando: lendas, aparições, assombros, episódios singulares, mortes antigas, zaragatas de pau e pedra, palavras de antepassados, um incansável rumor de memórias que me mantinha desperto, ao mesmo tempo que suavemente me acalentava. Nunca pude saber se ele se calava quando se apercebia de que eu tinha adormecido, ou se continuava a falar para não deixar em meio a resposta à pergunta que invariavelmente lhe fazia nas pausas mais demoradas que ele calculadamente metia no relato: "E depois?". Talvez repetisse as histórias para si próprio, quer fosse para não as esquecer, quer fosse para as enriquecer com peripécias novas.
Naquela idade minha e naquele tempo de nós todos, nem será preciso dizer que eu imaginava que o meu avô Jerónimo era senhor de toda a ciência do mundo. Quando, à primeira luz da manhã, o canto dos pássaros me despertava, ele já não estava ali, tinha saído para o campo com os seus animais, deixando-me a dormir. Então levantava-me, dobrava a manta e, descalço (na aldeia andei sempre descalço até aos 14 anos), ainda com palhas agarradas ao cabelo, passava da parte cultivada do quintal para a outra onde se encontravam as pocilgas, ao lado da casa. Minha avó, já a pé antes do meu avô, punha-me na frente uma grande tigela de café com pedaços de pão e perguntava-me se tinha dormido bem. Se eu lhe contava algum mau sonho nascido das histórias do avô, ela sempre me tranqüilizava: "Não faças caso, em sonhos não há firmeza".
Pensava então que a minha avó, embora fosse também uma mulher muito sábia, não alcançava as alturas do meu avô, esse que, deitado debaixo da figueira, tendo ao lado o neto José, era capaz de pôr o universo em movimento apenas com duas palavras. Foi só muitos anos depois, quando o meu avô já se tinha ido deste mundo e eu era um homem feito, que vim a compreender que a avó, afinal, também acreditava em sonhos. Outra coisa não poderia significar que, estando ela sentada, uma noite, à porta da sua pobre casa, onde então vivia sozinha, a olhar as estrelas maiores e menores por cima da sua cabeça, tivesse dito estas palavras: "O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer". Não disse medo de morrer, disse pena de morrer, como se a vida de pesado e contínuo trabalho que tinha sido a sua estivesse, naquele momento quase final, a receber a graça de uma suprema e derradeira despedida, a consolação da beleza revelada. Estava sentada à porta de uma casa como não creio que tenha havido alguma outra no mundo porque nela viveu gente capaz de dormir com porcos como se fossem os seus próprios filhos, gente que tinha pena de ir-se da vida só porque o mundo era bonito, gente, e este foi o meu avô Jerónimo, pastor e contador de histórias, que, ao pressentir que a morte o vinha buscar, foi despedir-se das árvores do seu quintal, uma por uma, abraçando-se a elas e chorando porque sabia que não as tornaria a ver.
Um lembrete do Mario Quintana
'A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.Quando se vê, já são seis horas!
Quando se vê, já é sexta-feira....
Quando se vê, já terminou o ano...
Quando se vê, perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê, já passaram-se 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado.
Se me fosse dado, um dia, outra oportunidade,
eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando, pelo caminho,
a casca dourada e inútil das horas.
Desta forma, eu digo:
Não deixe de fazer algo que gosta devido à falta de tempo,
a única falta que terá,
será desse tempo que infelizmente não voltará mais.'
Mário Quintana
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